Por Rodrigo Guedes de Carvalho
O que tenho para dizer vai parecer ríspido e desnecessário. Vai soar à bruta, vindo de voz sem alma. Mas é a mais absoluta das verdades que trago dentro. Quero que morras comigo. Estás a ver? Sentiste já o calafrio de quem está a ler-nos? Quem deseja a morte de alguém que ama? Que monstro? Mesmo tu terás percebido mal, espera, deixa-me recomeçar. Apanhaste-me o pensamento a meio, tens de ouvir tudo, é por isso que as pessoas falam de coisas fora de contexto. E ainda assim, mantenho o que disse. Escuta-me até ao fim. O que disse até agora é apenas o fim do que penso. Há mais antes disso. Há, simplesmente, eu partir e tu ficares. Depois, e só depois, morrermos juntos, tranquilos, de mão dada a olharmo-nos ainda, ou de repente, um desastre que nos apanha a meio de uma frase; que seja rápido. O que não pode acontecer (ouve-me bem), o que não pode nunca acontecer (escuta para não dizeres depois que não sabias), é tu partires e eu ficar por cá. Não pode acontecer. Repara que é diferente de espero que não se verifique: é não pode acontecer. Sobretudo pelo que me vou sentir maçado, a tentar disfarçar a náusea (tu conheces-me) de cada vez que se aproximarem de mim, e não serão poucas ou poucos, a perguntarem se podem fazer alguma coisa, que preciso de descansar, mas sobretudo, sobretudo, a garantirem-me que a vida continua, que agora dói mas o tempo tudo cura, que me agarre às recordações boas mas que siga com a minha vida. O que me iria chatear (tu conheces-me) é as outras pessoas que não são nós, os outros, esse inferno de que falava o Sartre, simplesmente porque as pessoas não sabem, não saberão nunca, que a vida não continua coisa nenhuma, que há leis que a nós não se aplicam, que chegámos um ao outro lutando contra todas elas, essas regras, leis, mandamentos medíocres, esses lugares-comuns, essas maçadoras previsíveis pequeninas maneiras de se viver sem viver tudo, gente que não percebe que não vives afinal se não nos entregarmos mesmo, olhos fechados sem medo de cair porque o outro está lá, está lá, e por isso inconcebível que não esteja. E como é inconcebível não pode ser, não pode acontecer, diferente de desejo que tal não suceda, por isso morrermos juntos, entende agora, ou daí eu partir e tu ficares, quando muito, porque é tão óbvio que não há nada depois de ti, tão impensável que venha o medíocre previsível patético próximo passo, de deixarem passar um tempo e depois porem-se a arranjar-me namoradas, a fingirem que ela entrou no restaurante por acaso, olá vocês não se conhecem pois não, até porque não percebem que nem sequer há mais restaurantes sem ti, nada sem ti, de forma que já hoje, já esta noite, vou tentar compor-te a canção, vou-me atrapalhar todo com as notas, vou desafinar, mas é daquelas coisas que quero fazer antes de partir, contigo ainda porque não há nada depois, vou desengonçado a cantarolar, mas tu não te importas, porque sabes de onde vem a canção. E só tu.